Adaptações

Eu acho todo o processo de tradução muito interessante: envolve você pegar algo que um emissor disse ou escreveu, interpretá-lo e tentar repassar, de alguma forma, a ideia para uma terceira pessoa de alguma forma.

Esse é um processo que é complicado, pois o tradutor deve considerar quem é o remetente de sua tradução, senão, há o risco de usar termos complicados demais e, assim, não conseguir ser entendido, e há o risco de usar termos simples demais e assim deixar partes importantes da ideia original sem serem transmitidas.

E nisso surge o problema das adaptações: o que fazer quando as ideias de uma língua e suas culturas não se mapeiam facilmente para outra língua? Você pode deixar os termos no original e explicar de alguma forma. Notas são comumente usadas para isso. Já falei delas várias vezes aqui no blog, eis mais um exemplo:

Explicação de chuuni.

Por outro lado, o emissor esperava que o remetente precisasse de ouvir uma longa explicação de um termo que para ele é simples? Por acaso ele esperava que uma explicação fosse dada praticamente toda vez que um termo fosse usado?

Outras três explicações de chuuni e três de ranobe.

Em várias situações - e no caso que para mim é mais comum, em animes - não é muito adequado deixar algum termo no original e dar uma explicação. Por causa disso vários termos comuns, como “senpai”, são deixados sem traduzir mesmo em traduções com muitas adaptações. Um exemplo é Fate/Babylonia na Crunchyroll: não usa nenhum honorífico mas usam “senpai”.

Eu defendo que é possível traduzir bem sem usar honoríficos, mas é necessário muita experiência para isso para evitar que a tradução fique estranha (como aconteceu em Boku no Hero Academia). No caso de Fate parece que a escolha deles não foi ruim, adaptaram os honoríficos até bem, mas por algum motivo julgaram que seria melhor deixar “senpai” sem adaptar.

Como é um termo comum qualquer um que já assistiu mais de dez horas de anime deve entender. Por outro lado me pergunto se isso é um indício que a palavra “senpai” está sendo importada para o Português. Ainda acho que não é natural quando eu falo que a minha “senpai” no ensino médio ficava implicando comigo, por outro lado também não acho muito natural falar que ela era minha veterana.

Há algumas situações em que adaptar ajuda na intenção original da obra: no caso de um anime de comédia, por exemplo, a tradução da direita é bem melhor do que a da esquerda, concordam?

"Armas" e "Três oitão"

Pop Team Epic é outro anime de comédia. O que acham melhor, a tradução da esquerda ou da direita? Ainda que a da esquerda tenha traduzido os textos acho acho que a da direita ficou melhor porque conseguiu transmitir a intenção original desta cena:

"C-Calma lá..." e "'Ma, oê! M-Ma oê!'"

(Ah, outro motivo para eu achar a tradução da direita melhor é a estilização: a borda das legendas da HIDIVE é tão fina que fica bem difícil de ler… mas isso é um assunto para uma outra postagem.)

Mesmo se um o anime não for de comédia é importante pensar nos termos usados. Gochuumon wa Usagi Desu ka? é um anime sobre garotas fofas, o normal seria normal fazê-las falar de uma maneira fofa e feminina (claro, sem exageros):

Bom dia, flor do dia.

O problema é o que acontece quando um tradutor acha que um anime sério é lugar para fazer piada, dá nisso:

Mas se eu deixá-lo aqui, ele vai acabar virando churrasquinho.

Se eles morassem no Brasil, com certeza esse gato iria virar churrasquinho… mas não! Isso é Japão. Esse é um anime sério que mostra o relacionamento desses dois e o crescimento deles como pessoas. Para quê adaptar “abrigo de animais” para “churrasquinho”? Todo mundo entende o que é um abrigo, não é hora para fazer piada.

Claro, como a CR não dorme em serviço já corrigiram esse problema. O pessoal gosta de fazer críticas mas esquece que eles aceitam ser corrigidos (diferente do que a maioria faz):

Mas se eu deixá-lo aqui, ele vai acabar indo para o abrigo de animais.

Falando na minoria há um tipo de adaptação que eu sinto falta nas traduções dos animes mais novos:

I'm not from West Philadelphia, but this looks like trouble in the neighborhood. (Não sou de West Philadelphia, mas parece que há um problema na vizinhança; é uma referência de Fresh Prince of Bel Air)

Eu sei que um tapinha não doi, mas isso é um pouco demais… (é uma referência de uma música de MC Naldinho)

Pessoal, por que vocês traduzem animes de comédia como se estivessem fazendo a tarefa de casa ou um artigo científico? Isso vale não só para os tradutores mas os revisores também: não tem problema deixarem um “né” no lugar de “não é”.

Se o anime é para rir, para quê ficarem tão sérios?!