Quando trema não é um erro

Faz alguns meses vi na tradução de Hizaue uma situação interessante. Colocada na forma de pergunta ela é “Como escrever ウグイス de uma forma que alguém que fale português consiga ler corretamente?”.

Existem vários sistemas de romanização diferentes. Uma primeira escolha para muita gente seria trocar cada caractere por sua leitura e dar o trabalho como feito. Assim teríamos “uguisu”.

Porém se alguém que fala português ler isso e alguém que fala japonês ler ウグイス o resultado será bem diferente: o “u” não será pronunciado e o “s” vai ter som de “z”.

Claro, a maioria dos tradutores não dá a mínima para a pronúncia e prefere seguir as regras dos sistemas de romanização, mas nesse episódio de Hizaue achei um tradutor que decidiu priorizar a pronúncia:

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(Está em 13:04 desse episódio)

Está errado? “Não existe trema na língua portuguesa!” Será que não existe mesmo?

O novo texto ortográfico propõe a supressão completa do trema, já acolhida, aliás, no Acordo de 1986, embora não figurasse explicitamente nas respectivas bases. A única ressalva , neste aspecto, diz respeito a palavras derivadas de nomes próprios estrangeiros com trema (cf. mülleriano, de Müller, etc.). ― «Anexo I» (PDF). Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Priberam. 16 de dezembro de 1990.

Nesse contexto - quando ele estava falando vários nomes próprios para ver se achava um nome melhor para a gata dele - o uso do trema está certo: “ugüisu” é uma palavra derivada de nomes próprios estrangeiros (e é o nome de uma ave).

Foi essa a melhor opção? Não, mas não por causa do trema e sim porque o problema da pronúncia do “s” entre vogais não foi resolvido. Então o que seria uma opção melhor? Vamos dividir esse problema por partes.

Primeiro, como podemos garantir que quem ler o nome irá pronunciar o “u”. Considerando que o trema causa estranhamento para quem não procurou saber os detalhes da reforma ortográfica o melhor seria evitar usar essa ressalva. Dessa forma - ignorando possíveis regras do português sobre aportuguesamento de palavras - poderíamos usar “ugu’isu”.

O segundo problema é sobre a pronúncia de “s” entre vogais. Podemos usar “ç” ou “ss”. Provavelmente usar “ç” é o mais correto uma vez que “nas palavras estrangeiras aportuguesadas, o fonema /ce/, diante das vogais ‘a’, ‘o’ e ‘u’, deveria ser grafado com cê-cedilha: ‘ça’, ‘ço’ e ‘çu’”, mas vamos considerar ambas as formas.

Dessa forma juntando todas as possibilidades temos: ugu’issu, ugu’içu, ugüissu e ugüiçu. Dessas possibilidades eu gosto mais da última: é correta com as duas regras e se aparecer alguém não sabe português direito e reclamar temos a chance de ensinar mais um pouco sobre nossa língua.

Ainda existe a opção de jogar a toalha: quem não sabe japonês não nota esses detalhes e quem sabe também não se preocupa tanto com isso, logo para que quebrar a cabeça com isso? Escreve “ugizu” mesmo!